Zeca Baleiro
Filosofia
Composição: Noel Rosa
O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.
Não me interessa
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.
Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.
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Quão inspiradora é a letra dessa linda composição! E o
quanto nos revela a cerca da personalidade do autor.
O autor usa de uma forma quase que arquitetônica para
transmitir um pensamento pessoal, a música nada mais é que uma crítica, e
porque não dizer um desabafo pessoal.
O compositor revela na primeira estrofe seu descontentamento
com as críticas taxativas que a sociedade impõe, com os pragmatismos e
definições de sujeito.
Não deixa de ser também uma crítica ao governo que
prefere fechar os olhos aos mais humildes, as classes operárias, a educação; é
uma crítica à sociedade e as pessoas que só se importam e defendem os próprios
interesses sem se preocupar-se e ocupar-se com outrem.
Faz uma alusão clara não só a sociedade como um todo, mas
especialmente aos políticos, aos governantes desse país que não se importam em
oferecer condições dignas de vida, de emprego, moradia, educação, saúde, lazer,
etc.
O autor cita a Filosofia como uma válvula de escape,
não a matéria e/ou ciência em si, e sim faz uma alusão a sua própria “filosofia
de vida”. O personagem (o eu lírico) é um sujeito humilde, pobre, um
trabalhador como tantos outros desse país.
Ao fazer comentários que permeiam a sua filosofia de
vida, o personagem não quer dizer que é feliz com a sua condição, que aceita de
uma maneira satisfatória a sua condição. Não! Ele elucida que se conforma com
tal realidade, que tenta permanecer indiferente a sociedade que o cerca.
Entretanto o personagem afirma que permanece “nessa
prontidão sem fim”, ou seja, por mais que ele tente ser indiferente e se
conformar, ele afirma ter uma esperança incondicional, esperança de que as
coisas mudem que um dia tal realidade vivida por ele e pela sociedade hoje,
seja outra.
E enquanto alimenta esse sentimento de esperança o eu
lírico se rotula, se esconde atrás de regras e paramêtros impostos pela sociedade;
ele finge uma identidade, finge ser rico temendo as críticas e o preconceito
advindos de sua condição humilde.
Já na penúltima estrofe, percebe-se que mesmo
descontente com as desiguldades sociais o personagem de certa forma luta para
impor suas ideias, sua poesia, sua filosofia, ele faz a sua parte na esperança
de um mundo e uma sociedade melhor, mais igualitária. Para tal ele utiliza da
música, de suas composições, que não deixam de ser uma forma de protestar, de
impor-se.
Ele se intitula “escravo do meu próprio samba”, uma
vez que ele encontra prazer em sua música, além de que é ele (o samba) o
combustível, o alimento para sua infindável esperança.
O autor termina a composição com uma brilhante crítica
a sociedade, especialmente aqueles que detêm maior poder aquisitivo. Ele afima
objetivamente que o dinheiro não compra caráter, não compra felicidade, nem o
prazer de poder assumir suas próprias ideias, suas próprias convicções.
O autor critica ainda esta sociedade hipócrita que tem
o dinheiro como “denominador comum” de tudo, que se ocupa muito mais com o ter
do que com o ser.
Que dá importância ao material, no lugar do pessoal,
que trata dinheiro como Deus e pessoas como lixo!
Por: Danúbia Larissa Miranda Silva Dias